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A Pegada Hídrica, conceito recentemente desenvolvido pela rede WFN (2011) e já aplicada em várias bacias e países do mundo, é um indicador da apropriação da água pelo homem, em termos volumétricos. O novo conceito é útil na definição de políticas e práticas de racionalização do uso da água e de gestão de recursos hídricos.

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A pegada hídrica azul diz respeito ao uso consuntivo da água dos corpos hídricos (rios, lagos, água subterrânea) por um produto, por um setor (indústria, agricultura etc.), por um consumidor ou grupo de consumidores, por uma bacia, por um município, um país ou pelo mundo.

A pegada hídrica verde está relacionada à evapotranspiração da superfície, seja de florestas, lavouras, reservatórios etc. A pegada hídrica cinza, por sua vez, é definida como o volume de água necessário para diluir os poluentes (de fontes pontuais ou difusas), de forma a manter os corpos d’água em padrões adequados / legais de qualidade. A soma das três dá a pegada hídrica total do produto, setor, bacia, consumidor etc.

A pegada hídrica é incorpora tanto os usos / impactos diretos como os indiretos, resultando em uma contabilidade hídrica relativamente completa. Considerando sua simplicidade e objetividade, a pegada hídrica é uma ferramenta transparente de fácil assimilação por gestores, decisores e cidadãos em geral.

Com o conhecimento cada vez mais detalhado dos processos ambientais e produtivos, a estimativa da pegada hídrica passa a ser factível em muitas regiões e bacias, podendo ser usada como um indicador de eficiência (ou ineficiência) da gestão hídrica.

Entretanto, um aspecto fundamental na utilização do conceito da pegada hídrica em uma bacia é o nível de sustentabilidade de cada um dos três componentes do indicador. Ou seja, não basta saber se a pegada hídrica é baixa ou alta, mas qual o grau de comprometimento da oferta de água na bacia ao longo do tempo e do espaço, tomando-se como base a sua situação natural. Para tanto, é fundamental que valores de referência (vazões mínimas, ambientais etc.) sejam estabelecidos nas bacias.

Uma vez conhecidas as pegadas hídricas e as disponibilidades de água em trechos e períodos da bacia, o nível de sustentabilidade ambiental pode ser calculado, indicando se o uso e gestão da água na bacia estão ou não sustentáveis.

Além do aspecto de sustentabilidade ambiental, a pegada hídrica utiliza também as sustentabilidades social e econômica. A primeira diz respeito à equidade da distribuição de água entre as pessoas numa certa região ou bacia, e a segunda se refere a eficiência econômica do uso da água, considerando-se o custo de oportunidade de usos alternativos.

Usando o volume de apropriação de água como um denominador comum dos impactos das atividades humanas na bacia, a pegada hídrica é uma ferramenta útil, pois permite comparar a eficiência do uso e gestão da água entre diferentes processos, produtos, bacias, consumidores etc.

Entretanto, há alguns riscos na utilização do conceito. Quando produtos ou setores que apresentam distintas pegadas hídricas em uma mesma bacia são comparados, tais como agricultura irrigada (p. ex. arroz), e indústria (p. ex. aço), o custo de oportunidade da água é claramente desfavorável ao primeiro. Esta desvantagem relativa ao quesito econômico poderia ser utilizada para desaconselhar o uso da irrigação em bacias com escassez hídrica em detrimento de outros usos economicamente mais eficientes, mesmo considerando outras vantagens comparativas / competitivas daquele setor.

Assim, sem a utilização de outros indicadores mais abrangentes no processo de alocação / gestão hídrica, poderia haver um importante viés na aplicação da pegada hídrica numa determinada bacia ou região.

Nesse sentido, países tropicais e em desenvolvimento, como o Brasil, que apresentam um grande potencial hídrico e agrícola, poderiam ser considerados como tendo uma grande pegada hídrica, quando comparados com aquela de outros países desenvolvidos, onde as matrizes agrícola e energética (grandes consumidoras de água), são distintas. Por isso, a utilização do conceito de pegada hídrica deve ser usado com cautela, e considerar aspectos como a segurança alimentar e energética.

Por outro lado, a pegada hídrica cinza é particularmente interessante para demonstrar a insustentabilidade ambiental, social e econômica da falta de saneamento ambiental nas bacias brasileiras, mostrando à população e aos tomadores de decisão a importância do problema e os custos da inação política.

Em função da importância do conceito de pegada hídrica e da sua grande aplicabilidade a nível internacional, ele será um dos doze temas tratados no VI Fórum Mundial da Água, a ser realizado em março de 2012, em Marselha.

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