imagem 01 - Entrevista

A presença de um brasileiro na presidência do Conselho Mundial da Água faz com que os olhos do mundo tenham uma expectativa maior sobre o fato do Fórum Mundial da Água acontecer no País.

O Sr. está vendo movimentos que sinalizem que o Brasil pode fazer um Fórum Mundial da Água de grande alcance mundial?

O Brasil é um país continental, que tem em seu território uma das maiores reservas de água doce em estado líquido do mundo, e tem vários cenários diferentes, desde o excesso de chuvas até a seca histórica no semiárido do Nordeste. Por todos esses fatores físicos e por tudo o que o país tem avançado em governança, engenharia e pesquisa na área, acreditamos que o Brasil pode realizar um evento de excelente nível técnico e político. O Fórum Mundial da Água é organizado a cada três anos pelo Conselho Mundial da Água e pelo país e cidade anfitriã. Ao todo, já ocorreram sete edições, as quais foram distribuídas estrategicamente em países de diferentes continentes. Essa distribuição busca representar as diferentes temáticas de usos e de gestão do recurso água. A última edição do evento aconteceu em 2015, na Coreia do Sul, em duas cidades: Daegu e Gyeongbuk. O evento, que é o mais importante sobre o tema da água no mundo, contribui para o diálogo do processo decisório sobre o tema da água em nível global, visando a segurança hídrica através da criação de infraestrutura e uso racional e sustentável deste recurso. Por sua abrangência política, técnica e institucional, o Fórum tem como uma de suas características principais a participação aberta e democrática de um amplo conjunto de atores de diferentes setores, traduzindo-se em um evento de grande relevância na agenda internacional. Participam governantes, especialistas acadêmicos, representantes de órgãos de fomento, ONGs e empresas que atuam no setor.

Enquanto o país discute uma séria crise moral e uma troca recente de governos, como imaginar o engajamento necessário dos governos na realização do Fórum?

O Brasil não passa por uma crise moral. Pelo contrário, estão sendo postas e discutidas questões importantíssimas para definir quepaís somos e que país queremos ser. Como todo país democrático, os rumos têm que ser discutidos e caminhos têm que ser apontados para que avancemos como civilização. Todos os países passam ciclicamente por situações como esta e, como a água é um bem fundamental, que está ligado a todas as áreas da nossa vida, creio que a discussão do seu futuro vai mobilizar como sempre faz, governos, especialistas, empresas e a sociedade em geral.

“O tema “Compartilhando a Água” é muito importante, já que temos 261 países que dividem bacias hidrográficas e com esse recurso se tornando cada vez mais escasso, é fundamental criar políticas que permitam o seu uso racional em conjunto”.

O que está faltando para que a mídia brasileira se engaje de forma mais efetiva na estruturação desse Fórum?

A mídia normalmente busca os fatos mais imediatos do cotidiano. Com a aproximação da data do evento, deve haver maior participação em geral. A troca de experiências nas áreas de sustentabilidade e segurança hídrica durante o Fórum deverá resultar em políticas públicas importantes para o País, que podem beneficiar diretamente a população. O debate sobre estas políticas se torna ainda mais importante diante das situações que o País tem enfrentado, como aconteceu com São Paulo, Distrito Federal e o Nordeste. Em breve, a mídia deve se aperceber disso.

É a primeira vez que o Fórum Mundial acontece  no Cone Sul e é a primeira vez que ele tem uma característica continental, dada a importância do Brasil na América Latina. O Sr. percebe na sociedade brasileira a consciência e o comprometimento para que o Brasil assuma um papel de liderança regional nesse tema?

Pelas características físicas que citamos na primeira resposta e por seu papel de liderança na América Latina, o Brasil pode e deve assumir um papel de protagonista na questão da água. Em 2014, a candidatura do Brasil foi selecionada e Brasília a escolhida como cidade-sede do evento. Desse modo, o evento ocorrerá pela primeira vez no hemisfério sul. O tema “Compartilhando a Água” é muito importante, já que temos 261 países que dividem bacias hidrográficas e com esse recurso se tornando cada vez mais escasso, é fundamental criar políticas que permitam o seu uso racional em conjunto. O Brasil, por exemplo, compartilha a Bacia Amazônica e a Bacia do Paraná/Prata com diversos países. Os temas dos fóruns são sempre uma sequência de discussões, mantendo um diálogo constante e evolutivo. Com as mudanças do clima, a questão da água se torna cada vez mais importante, porque ela tem reflexos diretos na qualidade de vida e no crescimento econômico. Na Coreia, em 2015, foram 40 mil visitantes e 18 mil participantes diretos em palestra e workshops. A expectativa é de que em Brasília tenhamos ainda mais pessoas. O Fórum tem painéis globais e também regionais, com temas como investimento, ecossistemas, governança e sustentabilidade não só na área ambiental, mas também na econômica e social. A parte mais técnica do evento, com os órgãos técnicos e governamentais, acontecerá no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. A parte empresarial terá lugar no Estádio Mané Garrincha, na feira anexa.

Na situação em que o mundo vive neste momento, quais os resultados que  representariam avanços significativos para a gestão de recursos hídricos no Planeta?

A crise da água no mundo não é apenas uma ameaça em si mesma, mas um risco múltiplo, envolvendo saúde, produção de alimentos e geração de energia, entre outros campos, e se refletindo diretamente na estabilidade política e social. Segurança hídrica significa disponibilidade confiável em níveis aceitáveis de quantidade e qualidade de água para saúde, sustento e produção, conjugada a um nível também aceitável de riscos. Em outras palavras, significa proteger a sociedade de perigos associados a enchentes e secas e garantir acesso das pessoas à água, contribuindo para seu desenvolvimento social e econômico. Mas esse avanço exige infraestrutura e isso só se consegue com investimento de longo prazo. O que significa que nas próximas décadas precisaremos, aqui no Brasil e no mundo todo, de mais infraestrutura, uso eficiente dos recursos, planejamento e governança fortalecida. Ou seja – usando uma adaptação livre – a construção da resiliência do setor envolve três “i”s: Instituições (governança, comitês de bacia, regulação e organizações que deem suporte); Infraestrutura (aumentar a capacidade de armazenamento para resiliência a eventos extremos) e Investimento (a infraestrutura hídrica tem custos associados elevados). Segundo o Banco Mundial, para que o mundo todo tenha acesso a abastecimento de água e saneamento até 2030 seria necessário um investimento aproximado de U$ 50 bilhões anuais. E o benefício direto de se atingir a segurança hídrica em nível global seria um crescimento da economia mundial de 0,5%, o que significaria um incremento de U$ 500 bilhões anuais de riqueza produzida. Superar esses desafios é um chamado para as lideranças nos níveis governamentais mais altos em todo o mundo. Vamos continuar trabalhando juntos e unir esforços para dar à segurança hídrica a importância que ela merece.

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“Acredito que temos dois legados muito claros e importantes da crise hídrica. O primeiro, de caráter comportamental, é a mudança de hábitos no consumo da água por parte da grande maioria da população, e o segundo, no plano da infraestrutura, é a constatação de que, para enfrentar os desafios das mudanças climáticas, é necessário contar com estruturas redundantes”.

 

Na realização deste evento no Brasil, quais os exemplos de boas práticas que o mundo poderá levar do Brasil?  

Temos a importante experiência de São Paulo, que enfrentou uma aguda crise hídrica com a seca de proporções inéditas registrada em 2014/15. As soluções encontradas e o aprendizado são importantes, tanto que outros países e outros estados têm vindo conhecer o que foi feito aqui no período. Acredito que temos dois legados muito claros e importantes da crise hídrica. O primeiro, de caráter comportamental, é a mudança de hábitos no consumo da água por parte da grande maioria da população, e o segundo, no plano da infraestrutura, é a constatação de que, para enfrentar os desafios das mudanças climáticas, é necessário contar com estruturas redundantes. Mais do que nunca, na crise todos sentimos o quanto a água é importante e o debate sobre o tema tomou conta da sociedade e daqueles que são encarregados de decisões na esfera político-governamental. A aderência de mais de 80% da população da Grande São Paulo à atitude de racionalização da água, estimulada pelas campanhas educativas do Governo do Estado e da Sabesp e pela adoção do bônus/ônus, mostra o quanto foi bem sucedida essa ação. E a permanência de índices de consumo cerca de 20% inferiores aos de antes da crise deixa claro que essa mudança comportamental veio para ficar. No campo da infraestrutura, obras de redundância, como as interligações Rio Grande-Alto Tietê e Jaguari-Atibainha, vêm para trazer um nível de segurança hídrica muito acima do que tínhamos antes. São obras que ficarão boa parte do tempo de “stand by”, mas que poderão ser acionadas a qualquer momento quando necessárias. Em suma, caminhamos para o futuro com muito mais segurança e conhecimento, preparados para novos desafios que venham a ocorrer. São Paulo e o Brasil também têm experiências interessantes na área de governança. Os comitês de bacia são um grande avanço nesse sentido funcionando de forma participativa, democrática, dinâmica e de elevado nível técnico. São os verdadeiros parlamentos da água, onde se resolvem os conflitos sobre o uso desse bem fundamental não com foco na disputa, mas com foco em qual a melhor forma de compartilhá-lo. E, falando em compartilhar a água, que é o tema do Fórum, temos ainda o exemplo do uso da água da represa Jaguari, do rio Paraíba do Sul. Esta represa, que hoje abastece o Rio, poderá em breve fornecer água para São Paulo também através da obra de interligação Jaguari-Atibainha. Essa obra permitirá inclusive que a água do Cantareira possa ser bombeada no sentido inverso, para a Jaguari, para ajudar o Rio de Janeiro caso a seca afete o reservatório que atende a maior parte dos cariocas. Assim, com uma obra só e um trabalho de governança muito interessante, estamos compartilhando a água e aumentando a segurança hídrica para a população dos dois estados.

Qual é a sua expectativa em relação à realização do Fórum Mundial da Água no Brasil ?

A mudança de comportamento da população em relação à falta d´água é um dos legados que o Brasil vai levar ao Fórum.

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Benedito Braga

Benedito Braga é uma das maiores autoridades mundiais no tema da água. Foi Diretor da ANA – Agência Nacional da Água e Presidente do Conselho Brasileiro do Programa Hidrológico Internacional (PHI) da UNESCO. É o atual Presidente do maior órgão internacional ligado a recursos hídricos: o Conselho Mundial da Água, que tem sede em Marselha, França. Professor da USP e atual Secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do Governo do Estado de São Paulo, ele é o principal responsável – como presidente do Conselho Mundial da Água, por organizar o Fórum Mundial das Águas que vai acontecer em sua oitava edição, no ano de 2018 em Brasília. É a primeira vez que o Cone Sul sedia esse evento que ocorre de três em três anos.

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