rio doceA história da Bacia Hidrográfica do Rio Piranga, assim como a dos moradores das cidades atingidas pela lama e daqueles que de alguma forma dependiam do Rio Doce economicamente, socialmente e até culturalmente, foi alterada de forma drástica após o rompimento da barragem da empresa Samarco, na região de Mariana/ MG, no dia 5 de novembro de 2015. A tragédia, que causou não só perdas materiais, mas a morte de 18 pessoas e o desaparecimento de uma vítima será para sempre lembrada por sua magnitude.

Logo após o fato, ainda não tínhamos a dimensão dos impactos e nem sabíamos qual seria o comportamento da onda de rejeitos. O distrito de Bento Rodrigues foi isolado e, apesar de termos notícias de que o material atingia as áreas como uma avalanche, só pudemos ter ideia do estrago após sobrevoarmos as áreas afetadas. A apreensão tomava conta de todos os moradores da Bacia do Rio Piranga – local do acidente – e daqueles que viviam em cidades margeadas pelo Rio Doce à medida que a lama atingia o leito do manancial.

Os Comitês da Bacia do Rio Doce acompanharam todo o processo de evolução da onda de rejeitos, que, dia a dia, alterava o cenário das regiões atingidas. Pela dificuldade em prever o comportamento do material resultante do rompimento da barragem de Fundão, cada notícia recebida era previamente confirmada com órgãos oficiais antes de ser divulgada para a imprensa e em nossos canais de comunicação. Uma orientação foi emitida pelo Comitê às empresas prestadoras de serviço de saneamento básico recomendando a interrupção da captação de água no Rio Doce após a passagem do rejeito, devido à incerteza da qualidade do recurso e o risco de contaminação das comunidades. Foi preciso cautela para garantir que a população recebesse notícias corretas e que não fosse instalado um sentimento de pânico. Pela transparência e o compromisso em prezar pela autenticidade dos dados divulgados, o CBH-Doce se tornou fonte recorrente da imprensa nas reportagens relacionadas à tragédia, o que resultou no fortalecimento do colegiado e reconhecimento por parte da população.

Ao percorrer o Rio Doce, do encontro entre Rio Gualaxo, do Carmo e Piranga até o encontro com o mar, o rejeito causou, entre outros prejuízos, a mortandade de espécies da ictiofauna, a devastação de matas ciliares e nascentes, a deposição de sedimentos no leito do rio e um aumento nunca antes observado da turbidez da água – o que impediu que prestadoras de serviços de saneamento básico captassem água no rio, gerando um colapso no abastecimento de inúmeras cidades.

O episódio nos mostrou quão despreparados estamos para eventos dessa natureza – não só a gente, enquanto Comitê de Bacia, mas também o poder público, a defesa civil e a própria mineradora. Porém, foi capaz de despertar em todo o Brasil um sentimento forte de solidariedade, que foi manifestado através da doação de água mineral, roupas e até contribuições em dinheiro. Os olhares se voltaram à Minas Gerais, provocando um debate em relação à maneira utilizada para o armazenamento dos resíduos produzidos através da extração de minério de ferro.

O que preocupa o CBH-Piranga e toda a bacia é que, segundo dados da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), existem mais 600 barragens no país e 16 delas são consideradas inseguras, sendo que uma está localizada em Ouro Preto/MG, município da Bacia do Rio Doce. Por isso, para que situações como essa não voltem a se repetir, os Comitês de Bacia apoiam iniciativas como a do Ministério Público, que apresentou um projeto de lei intitulado “Mar de lama nunca mais”, que prevê, entre outros pontos, a maior participação da população em ações de recuperação das áreas afetadas e o aumento da segurança em barragens de rejeito.

Além disso, o colegiado acredita na força do diálogo e na importância dos Comitês, que são compostos pelo poder público, pela sociedade civil e, inclusive, pelas empresas que retiram água em nossos mananciais – categoria em que se encaixam as mineradoras.

Durante a tragédia, foram realizadas reuniões periódicas promovidas pelo CBH-Piranga e demais Comitês da Bacia do Rio Doce, quando foram convidadas autoridades ligadas à gestão de recursos hídricos, especialistas ambientais e a comunidade, a fim de que, por meio da interlocução entre os setores e as comunidades afetadas, fossem encontradas alternativas para minimizar os efeitos da contaminação do rio pelo rejeito.

O processo foi acompanhado de perto também por membros do Fórum Nacional de Comitês de Bacias Hidrográficas (FNCBH) e pela Rede de Organismos de Bacias Hidrográficas (REBOB), que se mostraram não só solidários, mas atentos e preocupados com a questão das barragens de rejeitos no Brasil.

É importante ressaltar que o Rio Doce já se mostrava fragilizado antes do acidente, em função, entre outros pontos, do grande volume de esgoto despejado no manancial e da deposição de sedimentos resultantes da pouca cobertura vegetal. Por isso, o CBH-Piranga e os demais colegiados da Bacia do Rio Doce já realizavam trabalhos para a recuperação do rio, como o Programa de Universalização do Saneamento – que investiu cerca de R$21 milhões na elaboração de Planos Municipais de Saneamento Básico de municípios da bacia -, o Programa de Incentivo ao Uso Racional da Água na Agricultura – que financiou a instalação de um equipamento que orienta a periodicidade e quantidade de água utilizada na irrigação de lavouras, registrando índices de ate 70% de economia de água – e o Programa de Recomposição de APPs e Nascentes – que prevê o reflorestamento de áreas de recarga e cercamento de nascentes.

Apesar da gravidade dos fatos, o que nós do CBH-Piranga, do CBH-Doce e demais Comitês da bacia queremos é deixar uma mensagem de esperança e incentivar a comunidade a acreditar que é possível recuperar o Rio Doce e torná-lo ainda melhor do que ele era. Por isso, foi lançada, em fevereiro desse ano, a campanha “O Doce não morreu”, com o objetivo de fortalecer as nossas ações por meio da parceira com a população, que deve acreditar que, através da união de esforços, teremos o Rio Doce de volta!

Carlos Eduardo Silva

Carlos Eduardo Silva
1º vice-presidente do CBH-Doce e presidente do CBH-Piranga
Relato de quem viveu o momento de angústia e trabalha para ajudar na melhoria da qualidade e quantidade de água do Rio Doce

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