“Rio de Janeiro, cidade que nos seduz, de dia falta água e de noite falta luz”. Assim começava a marchinha que embalava os longínquos bailes de carnaval da minha infância. Era 1954 e o problema da água na capital da República não era o da disponibilidade hídrica, mas o de captação.

O tempo passou e o Rio deixou de ser a capital do país, assim como deixou de ser a maior cidade do Brasil, embora continue nos seduzindo. Já o carnaval, este saiu dos salões e se comercializou nas avenidas e nos sambódromos.Mas o problema da falta de luz e, sobretudo, de água, este só mudou de endereço.

A moderna tecnologia, que vai buscar petróleo no pré-sal a 7 mil metros no fundo do mar, costuma resolver o problema da captação. Entretanto, o que falta é água a ser captada.

São Paulo, por exemplo. Ou melhor, a Grande São Paulo. Ou, melhor dizendo, ainda, a Grandessíssima São Paulo, englobando a Grande São Paulo e, também, as regiões de Campinas e Piracicaba.

A disponibilidade de água na região metropolitana de São Paulo é menor do que a de qualquer Estado do Nordeste. Parece mentira, porque estamos acostumados a pensar no Nordeste como mais seco do que deserto de filme de Hollywood. Afinal, crescemos ouvindo Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira perguntando “a Deus do Céu, por que tamanha desolação”, como dizem os versos da imortal Asa Branca. Aliás, reza a lenda, que Dom Pedro II, ao conhecer o nordeste e sua aridez, teria chorado e prometido vender as jóias da Coroa. E ele não se referia a sua amantíssima esposa, a Imperadora d. Thereza Cristhina, mas ao próprio adereço que usava na cabeça.

Na Bacia do Alto Tietê, que abrange a região da Grande São Paulo, a disponibilidade hídrica é de 201 m3 por habitante num ano. Em Pernambuco, o Estado com menor disponibilidade de água no Brasil, é de 1.320 m3.

A cidade de São Paulo, que já foi da garoa, água fininha que caia nas madrugadas, só não enfrenta o racionamento severo para virar marchinha, ou melhor, funk de carnaval, porque importa água da Bacia do Piracicaba e, esgotado este manancial, já começa a fazer planos para trazer água do Vale do Ribeira, a 200 quilômetros da Capital.

E por que? Porque São Paulo não pode parar. Aliás, nenhuma cidade pode parar, na concepção cultural do brasileiro e, sobretudo, da nossa classe política.

O bom prefeito de qualquer cidadezinha do interior é o que traz indústria e, portanto, empregos para a cidade. E a cidade boa é a cidade que cresce, é a cidade grande e cada vez maior.

O Prefeito de São Paulo não é diferente. Sua plataforma, que o elegeu, era a de levar indústrias para a periferia, a zona leste, principalmente. Então, vira um jogo terrível, em que o trabalho de disponibilizar emprego não acaba nunca. Novas indústrias dão novos empregos que atraem mais gente para se empregar e que acabam desempregados necessitando de novas indústrias para lhes gerar novos empregos. Igual ao trabalho de Sísifo, da Mitologia grega, condenado por Zeus a rolar uma pedra até o topo de uma montanha para, em seguida, vê-la cair até o sopé da mesma montanha e, depois, recomeçar a rolar a pedra ao topo, tudo de novo, feito dízima periódica. Por toda a eternidade.

Ou, em Português mais claro, é o cachorro correndo atrás do rabo. O cachorro não pega o rabo porque o rabo corre junto com o cachorro. E assim é o esforço para industrializar São Paulo, a Grandessíssima São Paulo, com todas as grandes cidades de seu entorno.

Pois é. Se a Política fosse séria, cabia aos políticos convencer a população de que a boa cidade é aquela em que a água e o esgoto são tratados na sua totalidade, em que existam boas escolas e hospitais e, ainda, que seja arborizada e que tenha um bom sistema de transporte coletivo. Crescer por crescer, do que vale?

Ou seja, se a Política fosse realmente séria, os candidados a Prefeito nas regiões carentes de água, com as que compõem a Grandessíssima São Paulo, deveriam anunciar: “se eu for eleito, prometo não trazer nunhuma nova indústria, nem deixar construir qualquer novo condomínio, nem deixar varrer a calçada com mangueira d’água, como faz a empregada da minha vizinha”. A ideia pode parecer utópica. Mas a Prefeitura de São Paulo, para resolver o problema de trânsito, já cogita de permitir apenas uma vaga de carro para cada apartamento, desistimulando, assim, o transporte individual. Esta sim é uma idéia maluca.

O próprio sistema tributário implantado no Brasil incentiva o crescimento desordenado. Se a cidade tiver maior população, ganha mais do Fundo de Participação dos Municípios, se for agrícola, perde tributo, que privilegia a indústria.

Voltando à água, “que nasce na fonte serena do mundo”, na canção de Guilherme Arantes e que fez Gagarin, lá do espaço sideral dizer que a terra é azul, voltando à água, que está sendo buscada em Marte, pela NASA sedenta, o que fazer quando ela acabar? Sim, porque ainda não inventaram água artificial e os números são alarmantes. Estima-se que a Terra, nosso planetinha azul da cor do mar, tenha cerca de 1,4 bilhão de km3 de água. Entretanto, desse volume imenso, de matar a sede de multidões de bebuns de ressaca, 97% se referem à água salgada. Dos 3% restantes, quase tudo é gelo nas calotas polares ou dos aicebergues em busca de titaniques, restando, apenas, 0,001 do total como água doce utilizável. É isso mesmo, zero vírgula zero zero um. E a gente fazendo xixi nesta merreca que sobrou.

O Brasil detém 12% da merreca. Mas a Amazônia, com 7% da população, conta com 70% das águas superficiais brasileiras. Já as regiões Nordeste e Sudeste, com 70% da população, conta, apenas, com 9% dos recursos hídricos superficiais.

E, pra piorar, a população, que era rural, há 60 anos, está quase toda ela nas cidades, que não param de crescer e de fazer xixi. Aliás, xixi é eufemismo. Só de pneus, para desassorear o Rio Tietê, no trecho urbano de São Paulo, as retroescavadeiras tiram mais de trezentos pneus por mês. E meia dúzia de cadáveres. Fora o xixi, é claro.

A água não estica. Sua quantidade é a mesma, desde o princípio dos tempos. Como dizia Lavoisier, nada se cria tudo se transforma. É certo que existem soluções para o reuso e a dessalinização. Mas são muito caras e, por enquanto, devem ser afastadas. O bom seria se Jesus voltasse e, novamente em Canaã, se dispusesse a transformar o vinho em água.

Finalizando, este artigo não tem por objetivo o de estudar o perfil hídrico do país e nem de sugerir o planejamento de seu aproveitamento. Não. É um artigo que ambiciosamente veio para dizer que chega de novos empreendimentos nas grandes cidades do sudeste, sobretudo em São Paulo e no seu entorno. O governo, todos eles, não podem renunciar ao progresso. Mas progresso não é crescer a qualquer custo, com indústrias a qualquer preço. O Brasil é grande e cheio de regiões com muita água e pouco xixi. Se não quiser sair de São Paulo, que se direcionem as indústrias para o oeste do Estado, onde fica o aquífero Guarani. Ou, se não for para ficar em São Paulo, por que não em outros Estados mais bem servidos de água? Afinal, uma indústria em Quixaramobim pode representar menos emigrante morando em barraco de papelão na periferia de São Paulo. Fazendo xixi na água.

Sérgio Antunes

Procurador Chefe do Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo, escritor de amenidades e autor de textos jurídicos publicados em revistas especializadas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *