Quem leu o título deste meu texto talvez pergunte por que escolhi o ano de 2030 para ser citado na minha pergunta. O principal motivo, para nós brasileiros, é que esta é a referência que consta no Plano Nacional de Saneamento (PLANSAB) como sendo o ano em que teremos a universalização dos serviços de água e esgoto no Brasil.

Além desta razão especificamente brasileira, o ano 2030, em minha opinião, e de outros analistas, será um marco global no que diz respeito, não somente ao tema Água, mas, em relação às novas tendências que estão se desenhando e que trarão significativas mudanças na geopolítica mundial. Esta minha certeza é decorrente também das observações que extraí de reuniões internacionais (Fórum Mundial da Água, Rio + 20, Objetivos do Milênio, etc…) que participei nestes últimos 12 meses sobre o tema Água, bem como seminários e textos que tive oportunidade de acompanhar. O mundo em 2030 será diferente em relação ao nosso atual momento, com novos posicionamentos de países como Brasil, Índia, China, Estados Unidos, Rússia; encaminhamento de questões no Oriente Médio e Sul da Ásia e a busca do equilíbrio na Comunidade Europeia.

Sobre os temas que estão sendo discutidos como sendo os agentes de mudança nestes próximos 15 a 20 anos, existem dois que são sempre citados, a saber: URBANIZAÇÃO e INTERAÇÃO CRESCENTE ENTRE ALIMENTOS, ÁGUA e ENERGIA.

Nesta minha reflexão, me permiti abordá-los de uma forma global, sem perder as implicações destas mudanças no contexto brasileiro.

Hoje, 50% da população mundial (7,1 bilhões de pessoas) habitam regiões urbanas.

Até 2030 estima-se que a população mundial passará a 8,3 bilhões de habitantes e a população urbana passará a 60% (4,9 bi), contra os atuais 3,5bilhões. Esta tendência de um “mundo urbano” é irreversível. Lembremos que nos anos 50 o mundo era predominantemente rural, com somente 30% da população na época (2,5 bilhões de pessoas) nas cidades.

Segundo as Nações Unidas, até 2030 o crescimento de 37% da população urbana estará concentrado na China e na Índia e o restante com grande incidência em 9 outros países a saber: Bangladesh, Brasil, República do Congo, Indonésia, México, Nigéria, Paquistão, Filipinas e Estados Unidos. Das atuais 27 megalópolis (cidades com mais de 10 milhões de habitantes) passaremos para no mínimo 40 grandes regiões metropolitanas.

Com relação à interdependência crescente entre Alimentos, Água e Energia, pode-se afirmar que a demanda por estes 3 recursos aumentará significativamente em função das mudanças climáticas, do crescimento da população mundial, pela rápida migração da zona rural para as grandes cidades e pela expansão da classe média. Todos esses fatores aumentarão a pressão sobre principalmente Água e Alimentos.

A situação descrita não levará o mundo a nenhuma catástrofe desde que políticos, empresários e a comunidade científica, ou seja, sociedade em geral, se impliquem em estruturar políticas públicas que mitiguem esses riscos.

Preparar respostas objetivas e implementáveis para algumas perguntas é fundamental:

  • São estes recursos hídricos bem geridos?
  • As novas tecnologias poderão mitigar a possível falta destes recursos?
  • Quais os mecanismos de governança que cada país ou  região deverão adotar para diminuir a pressão sobre eles?
  • O que significa estabelecer um pacto pela segurança hídrica?

A título de entendimento mais claro da interdependência entre Alimentos (agricultura) e Água, em 2007, foi elaborado um estudo por uma equipe internacional e estimou-se em 3.000 litros a necessidade de água por pessoa/por dia. Como interpretar este número?

A água é indispensável para beber e consome-se em torno de 2 litros/por dia, mas, esta é uma pequena parte do que necessitamos em casa, sobretudo nas necessidades como lavar, cozinhar, limpar, etc. Isto também é consumo e, portanto, representa entre 50l a 200l/dia/pessoa, dependendo do estilo de vida do país, ou seja, uma parte modesta dos 3.000l citados anteriormente.

Existem, entretanto, outros personagens que utilizam também água para nos permitir viver: limpeza de ruas, bombeiros, agricultura, etc. É o que chamamos de necessidade indireta de água.

Destaque-se nesse consumo a interligação da Alimentação com a Agricultura. Como podemos ver, estas duas necessidades diretas e indiretas são de ordem totalmente de diferença de grandeza.

produtos-agua

Outra constatação do estudo feito a nível mundial é que independente das regras alimentares, muito diferentes de um país ao outro, o consumo de água sempre gira em torno da mesma ordem de grandeza, ou seja, 3.000l/dia/pessoa, distribuídos conforme tabela abaixo:

tabela agua

Como podemos ver as necessidades de água aumentam significativamente em razão da evolução das atividades humanas e modo de vida.

Cabe destacar se até aqui falamos de quantidade de água, não podemos esquecer a questão da qualidade, pois os recursos hídricos acessíveis são cada vez mais escassos e raramente potáveis.

Creio ser fundamental aprofundar o tema da qualidade da água, pois a sociedade de uma maneira geral, inclusive a imprensa, não dá atenção ao fato de que não adianta dispor de água na quantidade necessária às nossas necessidades se temos outra ameaça que pesa sobre nossos recursos hídricos: a poluição.

Como desenvolver a irrigação se os cursos d´água carregam produtos tóxicos gerados em instalações industriais.

O que adianta pensar em dessalinização ou reuso de água se os nossos lençóis freáticos estão contaminados por nitratos ou pesticidas de origem agrícola e nossos rios estão degradados por rejeitos urbanos e industriais.

Hoje, mais de 80% das águas “usadas” pelas cidades e indústrias são devolvidas ao meio natural sem nenhum processo de despoluição.

Todos os problemas, conceitos e tendências que até agora expus têm por objetivo alertar a sociedade que necessitamos fazer muito para que em 2030 possamos ter Água em quantidade e qualidade para todos.

Desde 1996 o Conselho Mundial de Água, do qual sou um dos Governadores pelo Brasil, vem trabalhando para sensibilizar as principais lideranças políticas mundiais, no sentido de tornar prioridade uma política global sobre a questão do acesso a Água e também a coleta e tratamento dos esgotos. No final do ano passado (2012), apresentou-se na tribuna das Nações Unidas o conceito do “Pacto pela Segurança Hídrica” que baseia-se no fato de que a Água é um ingrediente vital na transição para uma economia verde, redução de pobreza e desenvolvimento sustentável dos países.

Como conclusão desta minha reflexão, apresento abaixo as principais linhas de ação que vêm sendo desenvolvidas no Brasil, pelas associações, grupos empresariais, Governos Estaduais e Governo Federal, com o objetivo de em 2030 conseguirmos ter efetivamente a universalização dos serviços de Água / Esgoto no país.grafico01 grafico02 grafico03 grafico04

Articulista Newton Azevedo

NEWTON LIMA AZEVEDO
Engenheiro Civil pela Escola Politécnica da USP (1972), Governador pelo Brasil no Conselho Mundial da Água, Conselheiro para o tema Meio Ambiente da FESPSP – Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Membro do Comitê Executivo da AQUAFED – International Federation of Private Water Operators (França), Vice Presidente da ABDIB – responsável pela área de Meio Ambiente.

 

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